Cantareira de Heliópolis

Escudo do Cantareira de Heliópolis

Escudo do Cantareira de Heliópolis

CANTAREIRA FUTEBOL CLUBE DE HELIÓPOLIS

Fundação: 19 de abril de 1993
Uniforme: Camisa e calção quadriculados nas cores preto e branco; meias brancas com detalhes pretos.
Campo: Hospital de Heliópolis
Facebook: https://www.facebook.com/Cantareira-FC

História

O Cantareira Heliópolis Futebol Clube é um time de várzea da Zona Sul de São Paulo e foi fundado em 19 de abril de 1993 por Robinson Soares do Nascimento, mais conhecido como Bubu. Robinson resolveu realizar a vontade de seus tios: homenagear um familiar querido e oficializar as partidas de futebol frequentes entre os entes próximos.

O Cantareira é mais um entre vários times que usam o Campo do Hospital Heliópolis, único espaço para prática de futebol de campo existente atualmente na comunidade.

Chegada em Heliópolis

Bubu nasceu em São Paulo, no dia 10 de março de 1974, na região do Ipiranga. Seu contato com Heliópolis aconteceu quando ele tinha 11 anos. Antes disso, porém, Bubu frequentava os campos de futebol de várzea em Heliópolis com seu pai. Para Bubu, Heliópolis tinha mais campos de futebol do que casa naquela época, em que se destacavam times como Flor do São João Clímaco, Black Power, Vila Arapuá, Copa Rio e Vila Nova.

Bubu mudou de endereço para o outro lado da Estrada das Lágrimas, fora de Heliópolis. “Saímos da favela, mas a favela não saiu da gente”, afirmou Bubu, que conheceu sua esposa em Heliópolis, criou e educou sua filha de 15 anos, Amanda, também na comunidade.

Veja também: Em Heliópolis, 190 mil pessoas e mais de 40 times dividem um só campo de futebol

Elenco do Cantareira durante a Copa Libertadores da Várzea 2014 (foto: Arquivo/Cantareira FC)

Elenco do Cantareira durante a Copa Libertadores da Várzea 2014 (foto: Arquivo/Cantareira FC)

Nascimento do time

Segundo Bubu o time foi fundado durante um festival, no então campo do time Copa Rio, durante o feriado prolongado do dia 21 de abril de 1993. O campo do Copa Rio foi um dos campos de futebol de “terrão” mais citados durante a visita ao campo do Hospital Heliópolis. Atualmente, o local abriga a sede do Ratatá F.C., outro time de várzea do bairro que, por sua vez, fica próximo à sede da Rádio Heliópolis.

Bubu conta que seu tio quis muito participar daquele festival que acontecera no então campo do Copa Rio. Para isso, resgatou um uniforme velho com camisa branca e detalhe preto. Para Bubu, isso foi curioso já que seus tios eram todos palmeirenses e as cores do time em preto e branco faziam alusão ao rival Corinthians. Com uniforme e cores definidas, o nome para o time resultou de uma decisão unânime entre os tios: homenagear o avô, já falecido, de Bubu.

Cantareira e a novela Vereda Tropical

Morador de Alagoas, seu avô, Juquinha, tinha um time naquela região com o mesmo nome. Juquinha, o vô da família, chamava-se na verdade José. O nome Cantareira foi escolhido por conta da novela Vereda Tropical, na qual havia um personagem chamado Luca, interpretado por Mário Gomes. O personagem era centroavante do time fictício da novela de 1984, de Carlos Lombardi.

Primeiro jogo

O primeiro confronto disputado pelo time do Cantareira aconteceu no dia 19 de abril no campo do Copa Rio diante do Colorado, um dos times mais tradicionais à época da região de Heliópolis. A estreia acabou em derrota por 2 a 1 que, segundo Bubu, aconteceu porque o time era composto apenas por familiares ou, como ele mesmo diz, “só perna de pau”. Apesar de perder o primeiro jogo da história, o presidente disse que ficou satisfeito com o resultado uma vez que o adversário era um dos mais fortes times do bairro e o próximo passo era o de tentar reforçar o elenco. Com 19 anos de idade, Bubu conta que fazia faculdade na Universidade São Judas e convidou alguns amigos para apoiar o time dentro de campo.

Os tios que fundaram o time chamam Carlos, Geraldo, Léo e Zé. Todos faziam parte também do elenco, incluindo Bubu, que começou na posição de “teimoso”, como ele mesmo define devido a sua falta de intimidade com o futebol de campo.

Escudo inspirado na Alemanha

O primeiro uniforme do time, preto e branco, era muito curto e os jogadores sofriam no primeiro lance que exigisse mais de elasticidade das pernas. O primeiro a rasgar era o short, o que obrigou à família providenciar o quanto antes outro fardamento. Bubu conta que ele e mais alguns de seus tios foram para a região da 25 de Março, no centro de São Paulo, para comprar um jogo de short preto e, para manter a tradição do primeiro uniforme, mais um jogo de camisas brancas. Depois desse segundo jogo de uniformes que decidiram criar o escudo do time. Foi numa loja chamada Trianon – que depois ficou com o nome Sport e Ação e já não existe mais -, na região da rua Silva Bueno, bairro do Ipiranga, zona sul, que ‘”nasceu” o distintivo do Cantareira, de criação do próprio dono da loja. Inspirado na camisa branca e short preto, ele desenhou uma águia que lembra o atual escudo da seleção da Alemanha, que também utiliza camisas brancas e shorts pretos em seu uniforme.

O sucesso do Cantareira, que atuava no campo do Copa Rio, começou a criar ciúmes com o time da casa, donos do campo. Impedido de jogar no espaço, o Cantareira passou a jogar apenas em outros campos, como visitante – o famoso jogar “fora de casa”. E como há males que vêm para o bem, apesar de o Cantareira ficar sem um campo para receber seus adversários, o fato de ele ser obrigado a sair para outros locais resultou na sua fama pela várzea na cidade. Neste período, Bubu realizou um sonho guardado desde a fundação do time: jogar diante de um grande e tradicional time da época que, na ocasião, foi contra o Flôr de São João Clímaco. Naquela partida, o então jogador profissional Magrão (ex-Palmeiras e Corinthians) jogou pelo adversário, que venceu o Cantareira por 5 a 3. Depois disso, o time enfrentou outra força do futebol de várzea da região, o Black Power do Ipiranga.

Copa Kaiser

Final da Copa Kaiser 2012 no Pacaembu: da esquerda para direita, estão o artilheiro da competição Macedo (o segundo), o então técnico da Seleção Brasileira (de vermelho) e o presidente Bubu (quinto). (foto: Arquivo/Cantareira)

Final da Copa Kaiser 2012 no Pacaembu: da esquerda para direita, estão o artilheiro da competição Macedo (o segundo), o então técnico da Seleção Brasileira (de vermelho) e o presidente Bubu (quinto). (foto: Arquivo/Cantareira)

Em dois anos de fundação começaram a disputar grandes torneios e, em 1996, o Cantareira já entrava na Copa Kaiser, que celebrava a sua segunda edição. Bubu conta que, naquele começo, a Copa Kaiser não tinha muita divulgação. Graças a um jogador do Cantareira, chamado Caniggia, o time descobriu a competição que se tornaria a principal da categoria atualmente. O jogador viu um cartaz de divulgação em um bar no qual continha algumas informações, como o telefone da empresa Evidência Promotions. Após preencher uma ficha de inscrição, Bubu teve um retorno da empresa organizadora apenas 1h30 antes de encerrar o prazo para participar, mas o Cantareira conseguiu chegar a tempo.

Veja mais: o fim da Copa Kaiser

Naquela época, as primeiras fases da Copa Kaiser eram de mata-mata. O primeiro jogo do Cantareira na competição foi contra o Internacional do Morro Velho com uma vitória com direito a um belo gol do primo do Magrão (o mesmo que atuou pelo Corinthians e Palmeiras), o jogador Cabeção. A partida aconteceu no Distrital da Aclimação e o gol de Cabeção aconteceu após uma cobrança de falta do “meio da rua”, no ângulo. Para Bubu, Cabeção era melhor que seu primo Magrão. A segunda partida foi contra o Vila Nova do Sacomã, mas o Cantareira perdeu por 2 a 0 e foi eliminado.

Apenas com quatro anos de existência, o time do Cantareira permancia da principal competição varzeana. A Copa Kaiser 1997 inovou com o formato com grupos e o time de Bubu se deparou com fortes equipes na primeira fase como o Garotos da Vila Guarani, Unidos da Vila Facchini e Moleque Travesso, também da Vila Guarani. O Cantareira terminou a competição entre os 40 melhores times de São Paulo o que, na época, foi um grande resultado. Para se ter uma dimensão da dificuldade do campeonato, o Cantareira foi eliminado na edição de 1997 da Copa Kaiser com um grupo formado por nada menos que Botafogo de Guaianases, Botafogo de São Miguel e Flamengo da Vila Maria. Bubu relata que para todos os competidores, o Cantareira era uma “zebra”.

O sucesso já ultrapassava as fronteiras da zona sul e, numa famosa loja de artigos esportivos, chamada Julitem, localizada na avenida Guilherme Cotching, zona norte, todos perguntavam “quem era aquele time”. Como poucas pessoas conheciam Heliópolis, Bubu dizia que o Cantareira fazia parte do Ipiranga, uma forma estratégica de chamar a atenção, uma vez que aquele era o mesmo bairro do já famoso time Black Power.

Ainda no último grupo da Copa Kaiser 1997, o Cantareira começou com uma derrota diante do tradicional Botafogo de Guaianases. O segundo confronto foi contra o Flamengo da Vila Maria, no campo do União dos Operários, fato que para Bubu dificultou muito a locomoção de sua torcida. Já a torcida do Flamengo tinha apenas a Ponte da Vila Maria para atravessar e, por isso, a torcida adversária compareceu em maior número. Na ocasião, as duas torcidas entraram em confronto e a torcida de Heliópolis levou a pior. Por conta do episódio, a organização da Copa Kaiser decidiu punir as duas equipes, Cantareira e Flamengo, eliminando-os da competição. Os outros dois times daquele grupo tiveram boas colocações ao fim da partida: Botafogo de Guaianases foi o campeão; já o Botafogo de São Miguel ficou em quarto lugar.

De volta na competição em 1998, o Cantareira não pode contar com os jogadores envolvidos na confusão do ano anterior. O restante do elenco foi mantido e, mais uma vez, o time chegou entre os 40 melhores, mas dessa vez invicto, sem perder um só jogo. A eliminação aconteceu diante do Bate Fácil de Taboão da Serra, que chegou entre os quatro ao fim da competição daquele ano. Neste jogo houve outro problema envolvendo o Cantareira, que teria um de seus atletas acusado de atacar um pedaço de madeira em campo. Segundo Bubu, a súmula apontou uma pessoa de camisa na cor azul como autor da infração, o que causou estranheza por parte dos diretores do Cantareira, uma vez que as cores de seu uniforme são preta e branca. O que dificultou a argumentação para o time da zona sul foi que o ataque da madeira aconteceu logo depois de o árbitro apontar uma falta dentro da área do Cantareira, isto é, um pênalti a favor do Bate Fácil. O resultado de empate até aquele momento dava a classificação para o time de Heliópolis e a marcação da arbitragem causou a revolta dos torcedores. A organização da Copa Kaiser eliminou o Cantareira por cinco anos.

Retorno com jogador “importado” de quebrada

Cantareira, de cinza e preto, durante partida da Copa Kaiser 2011 (foto: Reprodução/Facebook)

Cantareira, de cinza e preto, durante partida da Copa Kaiser 2011 (foto: Reprodução/Facebook)

Em 2011 começou, já na Série A, o Cantareira começou com um grupo que tinha o Ufim, o Turma do Baffô e o Mãe Sara da Vila Santa Catarina, mas teve um mau desempenho ao terminar com apenas um ponto marcado e o rebaixamento para a Série B do campeonato em maio daquele ano. O regulamento da Copa Kaiser permitia que o Cantareira entrasse na Série B de 2011, já em andamento e, segundo Bubu, o time fez ‘pic’ (no estilo do) Corinthians. Houve uma reformulação na diretoria e na forma de pensamento do time, que ainda dava prioridade para jogadores do Heliópolis, mas precisou buscar jogadores “de fora” (do bairro). Foi quando chegou, na Série B de 2011, o jogador Macedo, morador de Paraisópolis, também na zona sul. O atleta foi descoberto durante uma partida do Cantareira contra a Portuguesa de Paraisópolis, equipe da qual Macedo era jogador e marcou três gols contra o time de Heliópolis, o que achou a atenção da diretoria adversária. Ainda na Série B, outra mudança foi que cerca de sete jogadores recebiam R$ 50,00 por jogo no esquema de apadrinhamento (uma ajuda de custo concedida por alguma pessoa física ou jurídica que escolhe um jogador. A mudança deu certo e Macedo acabou como artilheiro da Copa Kaiser daquela edição, com 16 gols, o que ajudou no retorno do Cantareira à elite da competição em 2012.

Com a mesma mentalidade e focado em um bom desempenho na Copa Kaiser, o Cantareira manteve o mesmo elenco, além de adquirir mais algumas peças importantes de São Bernardo e alguns meninos da base do time de Heliópolis (média de 20 anos). Alguns donos de comércio ajudaram o Cantareira, que começou a apresentar seus projetos sociais e sua festa das crianças para 1 mil pessoas. O time chegou a ter nessa época 15 padrinhos, que pagaram R$ 100,00 para cada um dos 15 jogadores. Para os jogadores da base, o Cantareira pagou uma cesta básica ou, em alguns casos, metade de algum curso que um garoto solicitou, além de ajudar na inserção no mercado de trabalho para outros. São essas as outras alternativas de ajuda sem precisar ter custos. Foi dessa forma que o Cantareira teve sua melhor colocação ao alcançar as quartas de final, além de ser time mais disciplinado, sem nenhum vermelho. No entanto, na partida contra o Turma do Baffô do Jardim Clímax, o Cantareira teve um jogador expulso e, para a organização, foi o suficiente para o time perder a vaga no quesito “fair play” para o Ajax da Vila Rica, que tinha um cartão amarelo a menos. Vale lembrar que o Ajax da Vila Rica foi o campeão da Série A da Copa Kaiser naquela edição com final disputada no Estádio do Pacaembu contra o Turma do Baffô do Jardim Clímax.

Foto: Reprodução/Facebook

Foto: Reprodução/Facebook

Em pleno San Siro

Que tal essa foto de um varzeano nato em pelo estádio San Siro? Zé Roberto saiu da quebrada de Heliópolis para ser modelo na Itália. Que moral, hein? Mas uma vez humilde, sempre humilde. O cara foi até um dos estádios mais famosos do mundo, vestiu a camisa do seu time do bairro, o Cantareira FC, e tirou essa foto. Na sua página no facebook, escreveu: “Porque o Cantareira Heliópolis também joga no San Siro”. E você, tem fotos com a camisa do seu time mundo a fora? Manda “pra nóis”. (trecho e foto retirada da coluna ‘Futebol de Várzea’, do jornal Metrô News, assinada pelo jornalista Diego Viñas, em 28 de maio de 2013)

 

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